A Mensageira – um conto sobre Rygar

A meia-elfa abre os olhos. O ritual tinha sido concluído. O que aconteceu, ela não sabe.

“Está feito” – diz o mago humano – “Lembre-se que a informação deve chegar ao Alto Burocrata Zaoldyeck o mais rápido possível.”
“Acho que você me procurou por saber que os meus serviços são os melhores”, disse ela, jogando o cabelo para o lado. o cabelo violeta e as tatuagens em todo o corpo são os sinais de sua liberdade. Não a liberdade comprada dos antigos escravos, mas a liberdade verdadeira que apenas os Mensageiros possuem. Seu corpo vestido em roupas leves é compacto e pequeno, sendo que um observador menos acostumado daria-lhe 13 anos fácil. Mas Leaf Speedster possui já 18 anos, o que é uma idade considerável, mesmo entre meio-elfos.
Gal Adator observa com estranheza a jovem meia-elfa. Como ela poderia garantir que a informação de alta-traição que poderia atingir a Alta Burocracia de Rygar chegaria em mãos adequadas sendo tão pequena, frágil e ainda não vestindo nenhuma armadura e não tendo sequer uma adaga em mãos.
“Como pretende proteger essa informação?”, perguntou ele à jovem, enquanto essa ajeitava alguns cravos e ferramentas de sua profissão de Mensageira. À exceção dos diversos porta-pergaminhos espalhados pelo corpo, tudo o que podia-se ver em Leaf eram os brasões da Guilda dos Informantes em seu pescoço e o da Casa Adamir, à qual fazia parte, um pequeno pedaço de madeira amarrado ao braço.
“Isso é parte da minha profissão, creio que o senhor não esteja interessado”, disse ela, preparando-se para a ação. “Apenas lembre-se que o pagamento deverá ser entregue em 3 horas, ou essa informação poderá ser catalogada pela nossa casa. Lembre-se que isso é parte do acordo que fez com meu chefe.”
“E você não tem interesse em saber do que se trata?” perguntou ele, enquanto ela se preparava no parapeito da torre.
“Não… Na minha profissão, curiosos morrem cedo.” disse ela, pulando da torre em direção a muralha de proteção da propriedade de Adator.
Caindo como um gato, sem causar o menor barulho, Leaf correu em disparada em direção a mais próxima ponte. Havia pelo menos três ruas no caminho, Leaf conhecia pela experiência. Na primeira esquina, um desnível para baixo. “Coisa de principiante”, disse ela, aproveitando a velocidade e pulando de maneira acrobática para atravessar o espaço entre o muro e teto do “Dragão de Forno”, restaurante popular entre os que gostam de uma comida caseira. Correndo pelos tetos das casas, seu peso não podia ser sentido e nenhum barulho ouvido.
Quando ela percebeu um zunido e uma peça de metal se cravando ao chão.
“Caramba, seja lá o que o tal Adator Gravou em mim, é sério”, disse ela, vendo o ninja que se aproximava. Ela não sabia que raça era a daquele ninja e nem tava interessada em saber. “Então quer dançar a minha música. Espero que saiba como encarar o larabiel, o displace“, disse ela, citando a arte de deslocamento criada para a movimentação em Rygar, cujo nome vem do fato de seu praticantes mais hábeis serem similares a panteras deslocadoras.
O ninja arremessava seus dardos em sua direção mas Leaf era mais rápida: os dardos sequer resvalavam nela. Porém, um dos dardos cortou um pouco de seu cabelo. Leaf, vaidosa como apenas suas veias élficas poderiam indicar, resolveu que era hora de contra-atacar, antes que o ninja tivesse chance de realmente a machucar.
Correndo até perto de um dos porta-estandartes mais baixos, Leaf se atirou contra ele e rodou o corpo, aproveitando o balanço do mesmo como impulso similar ao de um ginasta, Leaf lançou se corpo para o ninja, que recebeu a carga do peso propelido da pequena Mensageira diretamente em seu peito, despencando em meio à rua, onde, inconsciente, foi vítima da chacota de moleques e aprisionado foi pelos membros da Guarda. Leaf conseguiu se agarrar a um parapeito e, com um pulo bem treinado, voltou ao teto por onde corria, respirando alguns instantes. Depois de baixar a tensão, voltou a correr, como um gato silencioso sobre os tetos de Rygar.

Leaf abriu novamente os olhos. Ela sabia que o Ritual de Recuperação fora feito. Um passe e uma palavra-chave retirava do fundo de sua mente a mensagem Gravada com um passe e uma palavra-chave por Adator. Embora ela soubesse a palavra chave e o passe, ela nunca sabia o que tinha sido Gravado e posteriormente Recuperado em sua mente. Era melhor assim, ela sabia: curiosos morrem cedo em sua profissão.
“Então é isso”, disse Rafale Zaoldyeck, membro da Alta Burocracia de Rygar. “Esses são os panos para desestabilizar o governo?”, disse ele, questionando Leaf.
“E eu é que sei?”, disse ela dando de ombros. “Não faço a menor idéia do que você está falando. Só lembre que o serviço será pago por Adator ou a informação revelada.”
“Não aprende nada com toda essa informação que é Gravada em você?” disse Rafale. “Vocês Mensageiros poderiam fazer história e ter acesso a uma sabedoria que faria qualquer um ter inveja.” disse ele.
“Faz onze anos que trabalho como Mensageira e cinco que passei pelo Ritual da Mensagem Viva. Sou reconhecida a dez anos como Mensageira pela Guilda e desde então sigo fielmente o Dogma. E ele diz que o conteúdo da informação não é problema meu e muito menos o que você vai fazer com ela.” – disse Leaf – “E só aprendi uma coisa realmente válida como Mensageira: curiosos morrem cedo”, disse ela, em tom de despedida, se arremessando do parapeito da torre de Rafale Zaoldyeck no prédio da Alta Burocracia. Antes que ele pudesse se dar conta, apenas um ponto deslocando-se bem rápido para o centro da cidade indicava a presença de Leaf Speedster no prédio.

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4 comentários em “A Mensageira – um conto sobre Rygar

  1. rsemente disse:

    Muito bom! hauhuauah lembrou cammy ou alita, hheheh, era mensageira com 7 anos, parece coisa de aviãozinho do tráfico.

    Passou bem a ideia de como é um mensageiro.

    • A idéia é justamente essa… Mensageiros não se envolvem (na maior parte do tempo) com o que motiva a troca da informação. A postura normal de um Mensageiro é a mesma de Leaf. É claro que em Rygar devem existir Mensageiros que atuam como a Fatih de Mirror’s Edge, mas em geral os Mensageiros não fazem a menor questão de se envolver. São profissionais, apenas fazem seu trabalho.

      Quanto a questão da idade, normalmente os melhores Mensageiros, como Leaf, são treinados desde a mais tenra infância, sendo que apenas esses passam pelo Ritual da Mensagem Viva (que permite que uma informação fique “alocada” dentro do Mensageiro sem que ele saiba do que se trata. O Mensageiro sabe as palavras-chave para gravar, recuperar e apagar a Mensagem, mas ele próprio é incapaz de usar contra si mesmo essas palavras). Embora Mensageiros possam atuar a partir de qualquer idade, os melhores são sempre criados desde jovem (para Mestres de d20: isso quer dizer que Mensageiro deve ser uma classe básica, não de prestígio, criada a partir de Ladino ou Monge, com baixo BBA, Bõnus em CA similar à progressão de Defesa de SW, e habilidades voltadas à corrida e furtividade – boa parte das habilidades de monge e ladino, em especial coisas como Evasão, Mente Escorregadia e Queda Suava, podem ser úteis)

  2. […] Minotauros de Rygar (D20) Em uma cidade enorme como Rygar chegar em um canto ao outro é bem difícil, mesmo com as pontes para atravessar grandes distancias. A burocracia anda é um problema, e achar um lugar especifico em um bairro grande muitas vezes é necessária a compra de informações de um membro da guilda dos informantes, recebendo a informação por um dos seus velozes e exóticos mensageiros. […]

  3. Gran Kain disse:

    Parabéns pelo conto, fiquei com vontade de fazer um personagem Mensageiro depois desta =)

    No site http://www.rygar.com.br que (tenta) reunir tudo que foi criado sobre Rygar foi adicionado o conto com link para cá e links para todos os demais artigos já catalogados no site sobre Rygar.

    abraços e parabéns!

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